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Como criar um ebook interativo: o passo a passo

Como criar um ebook interativo que o leitor termina: os quatro níveis de interatividade, as etapas de produção e como medir se ele está sendo lido até o fim.

Tecnologia & Produto Digital Rafael Almeida

Você escreveu 80 páginas, mandou pro cliente e ele parou na quarta.

Não porque o conteúdo é ruim. Porque ler 80 páginas seguidas é um trabalho que ninguém combinou de fazer.

Saber como criar um ebook interativo resolve isso mudando o combinado: em vez de pedir leitura, o material pede ação. E ação, diferente de leitura, dá uma pequena vitória a cada capítulo. Se você ainda está entendendo o formato, o que é um ebook interativo cobre o conceito. Aqui é a produção.

Interativo não quer dizer animado

O erro mais comum é achar que interatividade é enfeite: página que vira com efeito, botão que muda de cor, sumário clicável.

Isso é navegação. Ajuda, mas não muda nada no resultado.

Interativo de verdade é quando o leitor produz alguma coisa enquanto lê. Ele preenche, escolhe, calcula, marca, decide. No fim ele não tem só informação na cabeça, tem um artefato na mão: o plano preenchido, a planilha com os números dele, a lista do que vai fazer segunda.

É por isso que ebook interativo termina mais. A pessoa investiu, e o que ela já construiu puxa ela de volta.

Os quatro níveis, do mais barato ao mais caro

Escolha um e faça bem. Subir de nível depois é fácil, manter um nível que você não consegue sustentar é o que trava o projeto.

Nível 1: campos preenchíveis. PDF ou documento com espaços para o leitor escrever. Tabela em branco, pergunta com linha embaixo, checklist. Custo quase zero, e já muda a taxa de conclusão.

Nível 2: navegação por decisão. Links internos que mandam a pessoa pra seções diferentes conforme a resposta dela. “Se você já tem lista, vá para o capítulo 5. Se não tem, capítulo 3.” O leitor lê menos e aproveita mais.

Nível 3: material vivo do lado de fora. O ebook manda pra planilha que calcula, para um modelo que ele copia, para um vídeo curto que mostra o passo difícil. O texto vira roteiro, e o trabalho pesado acontece fora dele.

Nível 4: acompanhamento. O leitor entrega o que fez e recebe resposta. Aqui é o único nível em que você descobre onde as pessoas travam, porque é o único em que elas falam com você.

A maior parte dos ebooks bons de mercado para no nível 2. Não tem problema nenhum nisso.

O passo a passo

1. Defina a transformação em uma frase. “No fim deste material você vai ter X pronto.” Se você não consegue escrever essa frase, o ebook ainda não tem forma, e nenhuma interatividade conserta isso.

2. Quebre em capítulos, um por etapa da transformação. Cada capítulo entrega uma parte do artefato final. Se um capítulo não produz nada, ele é apoio e deveria ser um box, não um capítulo.

3. Escreva a tarefa antes do texto. Comece cada capítulo definindo o que a pessoa vai fazer ali. Depois escreva só o necessário pra ela conseguir fazer. Essa inversão corta metade do texto que sobraria.

4. Escolha o nível e produza. Sem misturar. Um ebook com três capítulos nível 3 e o resto nível 1 fica esquisito e parece inacabado.

5. Teste com cinco pessoas reais. Não peça opinião, peça o resultado da tarefa do capítulo 3. Quem não fez, não leu. E quem não leu vai te contar onde parou, que é a informação que você quer.

6. Corte o que ninguém completou. O capítulo que travou três dos cinco não precisa de mais explicação. Precisa de tarefa menor.

O passo 5 é o que quase todo mundo pula, e é o único que traz dado real.

Um exemplo de como o passo 3 muda o capítulo: em vez de “Capítulo 3: como definir o seu público”, vira “Capítulo 3: escreva as três frases que descrevem quem você atende”. O conteúdo ensinado é o mesmo. O que muda é que no fim do capítulo existe uma coisa escrita que antes não existia, e a pessoa consegue ver que avançou.

As ferramentas, por nível

Não precisa de nada exótico.

  • Níveis 1 e 2: editor de documento comum com exportação para PDF, campo preenchível e link interno. Ferramenta de design serve igual se você já usa uma.
  • Nível 3: o mesmo, mais planilha compartilhada e vídeos curtos hospedados em qualquer lugar que aceite link.
  • Nível 4: aqui o PDF não dá conta, porque arquivo não registra nada. Precisa de algo que receba a entrega e devolva resposta.

Vale a regra geral: escolha a ferramenta que você já sabe usar. O ebook que sai em duas semanas na ferramenta chata vale mais que o que nunca sai na ferramenta perfeita. É a mesma lógica de ebook ou curso online, onde a escolha do formato costuma travar mais gente que a execução.

Os três erros que matam o interativo

Tarefa grande demais. Se a pessoa precisa de 40 minutos e uma planilha aberta pra completar o capítulo 1, ela fecha. Primeira tarefa tem que caber em 3 minutos.

Tarefa que não usa o que veio antes. Cada tarefa deveria puxar o resultado da anterior. Quando elas são independentes, o leitor sente que está fazendo exercício de escola, não construindo o dele.

Nenhuma vitória no começo. A primeira tarefa precisa devolver algo que a pessoa olhe e pense “isso aqui já me serve”. Se a recompensa só vem no capítulo 7, ninguém chega no 7.

Esse último é o mesmo problema que derruba curso gravado, e por isso vale ler por que o aluno não termina o curso mesmo que você só produza material escrito. O motivo do abandono é o mesmo nos dois formatos.

O que você não vai conseguir medir com PDF

Aqui está o limite honesto do formato.

Depois que o arquivo sai da sua mão, você não sabe mais nada. Não sabe quantos abriram, em que página pararam, qual tarefa travou. O ebook em PDF é o único produto digital que você entrega e depois fica no escuro. Sair do escuro é o que separa um arquivo de um infoproduto que funciona como serviço.

Dá pra contornar por proxy: peça, no último capítulo, que a pessoa te mande o resultado de uma tarefa que só existe ali. Conte quantos mandam. É medida grosseira, mas é medida.

Se você quer o dado de verdade, o material precisa ser entregue em algum lugar que registre progresso e responda quando a pessoa trava. É o que a Askine faz com material escrito, e é o que separa o nível 3 do nível 4. O resto da categoria de tecnologia e produto digital trata dessas escolhas de entrega.

Sobre vender isso

Um ebook interativo se vende melhor que um comum porque a promessa é concreta. “Você sai com o seu plano de conteúdo de 90 dias preenchido” é uma frase de vendas melhor que “aprenda a planejar conteúdo”.

Use a tarefa final como argumento na página. Mostre o artefato pronto, não o sumário. Como isso vira oferta está em como vender ebook e o cliente realmente ler.

O próximo passo

Pega o ebook que você já tem, ou o que está na gaveta, e faz só uma coisa: escreve a tarefa de cada capítulo antes de mexer no texto. Vai levar uma tarde.

Na maioria dos casos você vai descobrir que três capítulos não produzem nada e podem sair, e que o material fica melhor com metade do tamanho. Se quiser uma segunda opinião nesse recorte, fale com a gente.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre um ebook comum e um interativo?

O ebook comum é lido de ponta a ponta ou abandonado. O interativo pede uma ação a cada trecho: preencher, escolher, aplicar, responder. Quem termina um interativo sai com algo pronto, não só com informação.

Preciso saber programar para fazer um ebook interativo?

Não. Os dois primeiros níveis de interatividade se fazem em editor de documento comum, com campos preenchíveis, links internos e checklists. Programação só entra se você quiser trilha condicional ou correção automática.

Qual o tamanho ideal de um ebook interativo?

Menor do que você está pensando. Como cada trecho pede uma ação, o tempo real de leitura é bem maior que a contagem de páginas sugere. De 20 a 40 páginas com tarefa em cada capítulo costuma render mais que 120 páginas de texto corrido.

PDF serve ou preciso de uma plataforma?

PDF serve para os níveis 1 e 2, com campo preenchível e links internos, e tem a vantagem de o leitor guardar o arquivo. Plataforma passa a valer quando você quer saber onde as pessoas pararam, porque o PDF não te conta nada.

Como sei se o meu ebook está sendo terminado?

Com PDF você não sabe, e essa é a maior limitação do formato. Dá para estimar por proxy: peça o resultado de uma tarefa que só existe no último capítulo e conte quantos entregam. Se você quer o dado real, precisa entregar em algo que registre progresso.

Vale mais fazer um ebook interativo ou um curso?

Depende do que a pessoa precisa produzir. Se o resultado é um documento, um plano ou uma decisão, o ebook interativo entrega mais rápido e custa menos para fazer. Se o resultado exige ver alguém executando, é vídeo.

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